[continuação da "Reação de saponificação a reação de engolir sapos']
Chegando em casa, fui pesquisar. Depois de muitas pesquisas, achei uma frase que me chamou muito a atenção: “as cinzas são ricas em alguns óxidos metálicos, tais como óxido magnésio, óxido de cálcio, dentre outros”.
Bingo!!!
Por isso é possível fazer sabão com cinzas. Devido às cinzas serem ricas em óxidos metálicos. Estes óxidos têm características ALCALINAS e quando entram em contato com água formam álcalis (bases) tal como a SODA CÁUSTICA. É claro!!! Por isso que a minha vó comentou que para fazer sabão ela usava uma GRANDE QUANTIDADE de cinzas. As cinzas são uma mistura rica em óxidos, mas como não é um único óxido e sim uma mistura de substâncias, ela vai precisar de muitas cinzas para ter uma concentração próxima à da soda comprada. Dãããã – Como eu não pude pensar nisso antes?!?!?
Com essa descoberta, me bateu um remorso. E lá fui eu para a casa da minha vó para me desculpar.
Chegando, bato palmas e logo ela sai caminhando suavemente através da garagem. O sol realça as marcas do tempo em seu rosto e ao me olhar ela abre aquele sorriso lindo que só a minha vó sabe dar. Ela se aproxima e me afaga com um abraço carinhoso de mãe2. E, carinhosamente me convida a entrar e a tomar um chá com ela.
Ela corre para frente do fogão para esquentar a água – feliz da vida. Para ela, era indiferente eu me desculpar ou não, pois o importante era a minha visita.
Eu tentei não fugir do real motivo que estava ali. Relutei, e com uma vergonha imensa, comecei a me desculpar:
- Sabe vó, aquela ultima vez que vim aqui… Eu cheguei aqui um tanto petulante, sabe? Com o REI NA BARRIGA. Então, eu queria…
Suavemente a minha vó se vira e pergunta:
- Mas e daí? Você viu o porquê de a gente fazer sabão com cinzas?
Eu, com uma cara de espanto, olho para a minha vó e pergunto:
- Como assim, vó?
E ela: – Ué, você não veio me explicar o porquê da gente fazer sabão com cinzas?
Sem jeito, comecei a me perder nas palavras.
- É, também, vó…sabe…não…é que eu estava com o rei, sabia tudo, errei, eu queria…
E ela, dando gargalhadas do meu jeito, me interrompe.
- Chiii, meu netinho querido, cheirou cola?!?!?!
- Claro que não, né, vó!!!
- Então, esquece o que não é importante e me explica de uma vez o porquê da gente fazer sabão com cinzas?
Ainda assustado, comecei a explicar.
- Vó, a gente usa as cinzas porque elas têm ingredientes parecidos com os da soda, só que em menor quantidade. Por isso a vó usa uma grande quantidade de cinzas.
- Mas que ingrediente é esse? E como vocês que estudam chamam estes ingredientes?
- Estes ingredientes são chamados, na química, de óxidos. A partir do óxido de sódio a gente pode obter o hidróxido de sódio que a vó conhece como SODA.
- Então quer dizer que a soda cáustica que eu compro no seu Alfredo é feita a partir do óxido que pode ser encontrado nas cinzas?
- Não, vó. Industrialmente, a soda é feita a partir do sal de cozinha. Através de uma reação que na química a gente chama de eletrólise – reação que precisa de eletricidade para ocorrer.
- Chiii. Agora eu não entendi nada. A soda não é feita das mesmas coisas que as cinzas? Nas cinzas não tem soda?
- Vó, nas cinzas há muitos compostos. E uma grande parte deles podem resultar, quando em contato com a água, em compostos parecidos com a soda. Mas, não é a soda.
- Vamos ver se eu entendi. Quer dizer que a Soda que eu compro no seu Alfredo é feita do sal de cozinha com a ajuda da corrente elétrica. E que nas cinzas tem compostos que precisam de água para produzir um composto parecido com a soda, mas que não é a soda. Em alguns casos, dependendo da composição das cinzas, somente uma pequenina parte, mas muito pequena, destas cinzas é que pode produzir a soda. Devido a tudo isso que eu preciso de muitas cinzas para fazer o sabão. Estou correta?
- Isso mesmo, Vó.
- Nossa filho, como eu gostaria de ter aprendido tudo isso antes. Mas sabe, na minha época a gente não tinha muita escolha, ou a gente estudava e morria de fome ou trabalhava e ficava sem estudar. Ainda bem que os tempos mudaram e você teve a oportunidade de estudar e agora eu tenho um neto que pode me explicar tudo o que eu antes não aprendi.
E eu com um sentimento misturado com remorso e felicidade, desabafei:
- É vó, hoje eu aprendi uma grande lição.
- E que lição foi?
- Que a teoria é muito importante para entendermos o mundo, mas que ela sem a prática não é grande coisa. E as muitas pessoas que estudam e acham que sabem tudo vão acabar por engolir muito sapo, como eu.
A minha vó não falou nada.
Aproveitei o silêncio e me despedi com o mesmo carinho com que fui recebido. E fui embora. Agora sem sapo entalado. Mas com uma queimação horrível provocada pelo nervosismo da situação – vergonha é uma desgraça. Ao chegar em casa, perguntei pra minha mãe:
- Mãe, o que é bom pra queimação?
- Dissolve brasa na água que é bom! É um santo remédio para queimação.
- Como assim dissolve água na brasa? Com quem você aprendeu essa coisa ridícula, mãe?
- Com a sua vó…
Eu ri, e escutei ao longe o coaxar dos sapos, só que desta vez, eles não vão entrar pela minha boca.
Mas afinal, ainda sobra uma pergunta: Por que a brasa dissolvida em água é um santo remédio para a queimação?