Por Hebert Hiroshi Sato“Os dias que estes homens passam nas montanhas são os dias em que realmente vivem. Quando as cabeças se limpam de teias de aranha e o sangue corre com força pelas veias. Quando os cinco sentidos cobram vitalidade e o homem completo se torna mais sensível e então já pode ouvir as vozes da natureza e ver as belezas que só estavam ao alcance dos mais ousados”.
Messner
Por experiência própria e por uma observação ao longo dos anos, pude perceber o quanto a relação com as montanhas muda a perspectiva do ser humano com o seu mundo. O esforço físico e mental que a ascensão requer, valoriza a pessoa. De outro lado, a mudança de escala mostra um mundo maior e acima do ser humano.
Pode-se assim dizer que, a ascensão às montanhas tem um impacto forte na consolidação e na aquisição de valores. Tais valores, permeados por sentimentos, vão desde o temor, religiosidade, uso, proteção, possibilidade de “conquista” até uma necessidade de reaproximação com uma natureza sempre vivida como distante.
Para perceber tais questões, escolhi um local específico, o Morro Anhangava, localizado na Serra da Baitaca. Em pesquisa realizada entre os meses de julho a dezembro de 2005, levantei algumas daquelas formas de relação do homem com a natureza através de entrevistas, enfatizando, como decorrência da observação, os elementos de controle e domínio presente na prática de alguns montanhistas.
Percebi que muitos montanhistas/escaladores iniciaram a sua aproximação com a montanha como um caminho para o controle/conquista do medo, sendo ainda seu discurso permeado pela idéia da “sensação de aventura”. Como sabemos, no montanhismo o risco é inerente à prática, desta forma, viver este risco, dominá-lo e ultrapassá-lo é um grande desafio. Neste sentido ainda, o risco tem que estar a altura de quem o desafia, para poder ser uma conquista significativa – uma grande aventura.
Até mesmo a idéia de que a montanha proporciona uma “fuga da realidade”, surgida no discurso de alguns montanhistas/escaladores, traz em si o conceito de escapar de alguém ou de alguma coisa que o domina. A sociedade exerce este papel de dominador; então, é necessário fugir, nem que por um breve momento, para suportar a dominação exercida por esta sociedade limitante. Pode-se dizer que esta dominação faz com que o homem se remeta à ou se re-aproxime da natureza, mantida afastada pelo histórico ocidental de conquista e separação.
As diferentes motivações que levam estes e outros indivíduos às montanhas são o fundamento para as diversas ramificações, divisões ou “especializações” que acabam mediando e dando forma às relações com a natureza. Tais divisões acabaram por dividir o montanhismo em categorias ou sub-grupos. É neste sentido que vemos a existência de, além do montanhismo propriamente dito, de atividades como paraglider, snowboard, mountain bike, treeking, boulder, escalada esportiva, escalada em rocha, escalada em solo, vôo livre, dentre outras. Ousamos afirmar que tal especialização está ligada a uma forma de pensar “cartesiana”, que divide o universo em fragmentos e perde a percepção do todo. Além disso, ela, é regida por uma ditadura numérica: a graduação – utilizada como forma de medir um desempenho.
Esta “ditadura” começou a tomar um grande impulso no morro Anhangava por volta de 1985, quando foram conquistadas inúmeras vias com graduações acima do 7º grau. Isso, de certa forma, é uma preocupação expressada na fala de alguns montanhistas escaladores: “(…) quando eu falo com os mais novos sobre a “filosofia” do montanhismo, a história, eles falam que eu estou ficando velha”.
Interpretamos que a preocupação com o desempenho surge como decorrência de um impulso que não pode ser satisfeito – uma carência. Para satisfazer esta carência, é necessário muito trabalho que, por sua vez, não é imediatamente gratificante. Isso porque, subir ou escalar uma montanha traz em si fatores de “sacrifício”: os equipamentos apresentam, apesar de todo o avanço, um desconforto na utilização; os sapatos utilizados para prática são desconfortáveis, já que são, ou pesados ou de números menores (para melhor firmeza); os equipamentos mesmo sendo de alumínio por sua grande quantidade são pesados e de difícil transporte, os locais são longínquos necessitando de horas de caminhada para chegar aos locais e muitas vezes estas caminhadas acontecem sob um sol escaldante.
Como podemos ver, não há conforto em tal prática, entretanto, a busca pelo desempenho continua de modo incessante, exigida por uma sociedade que somente valoriza o “alto desempenho” e os atos “heróicos”.
Mas, partindo desta minha pesquisa, percebi que o desempenho escraviza, aliena o montanhista (esportista) e impõe determinações na sua conduta. Porém, considerando-se que, para que esta busca incessante não ameace ninguém, torna-se necessário controlar os fantasmas do desempenho. Em outras palavras, o homem só poderá alcançar a felicidade se transcender esta busca incessante e alienadora pelo desempenho.
Como vimos, a busca pela conquista, pelo domínio ou pela fuga, esteve presente na fala dos entrevistados, principalmente quando estes se referiam ao início de sua história de relação com a montanha. Entretanto, complementar a este tipo de discurso, veio à tona a visão de que a relação com a montanha hoje “é algo mais”. Para vários deles, as montanhas mostram uma nova forma de ver vários valores da vida, indo muito além da busca pela maior graduação ou da superação de montanhas cada vez mais “difíceis”.
Para eles, a montanha passa a ser um santuário. Não um santuário como sinônimo de ambiente rico em fauna e flora, mas, no sentido religioso do termo – um caminho. A partir deste momento, o montanhismo vem carregado de outras características, diferentes daquelas dadas por uma definição, digamos, mais “oficial” ou presente nos manuais de escalada. O escalador, antes apenas “esportista”, passa a se ver mais como um “montanhista” – não mais como alguém que desafia e conquista a montanha mas como alguém que se torna “parte” dela.
Com isto, é possível ver assim, o quanto o discurso dos entrevistados sofreu e ainda sofre mudanças. De uma relação de simples conquista e dominação, passam a analisar sua relação com a montanha como uma busca por “ascensão espiritual” acima de tudo. A montanha é hoje uma “arte de sua vida”, extremamente importante, a ponto de não poderem viver sem ela e um local onde podem alcançar a felicidade tão almejada, depois de muito “sofrer”.
Os entrevistados para a pesquisa foram: Roberta Nunes (in memorian), Diego, Edson (Du Bois), Ceusnei, Tiago (Camuza), Cláudio Newton, Guilherme (Manguabinha) e César Lineu.


“Os dias que estes homens passam nas montanhas são os dias em que realmente vivem. Quando as cabeças se limpam de teias de aranha e o sangue corre com força pelas veias. Quando os cinco sentidos cobram vitalidade e o homem completo se torna mais sensível e então já pode ouvir as vozes da natureza e ver as belezas que só estavam ao alcance dos mais ousados”.
Gostei dessa frase!
Arrasou!
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