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PENSANDO A RELAÇÃO HOMEM-NATUREZA A PARTIR DO MONTANHISMO – Um estudo de caso no Morro Anhangava – PR

O cartesianismo transformou radicalmente a relação do homem com a natureza e do homem com a sociedade. Como conseqüência do desenvolvimento da técnica, o homem afastou-se da natureza, tomando-a como um objeto a ser dominado. Mas o homem retorna à natureza, aqui no caso às montanhas, visando resgatar um prazer “perdido”; entretanto, acaba desenvolvendo ainda uma relação de domínio na figura do “desempenho”. Sendo que, através disso, acaba se alienando do que faz e do que é. Veremos neste trabalho, de que forma estas questões se refletem na história da relação do homem com as montanhas em geral e especificamente com o Morro Anhangava situado na região metropolitana de Curitiba-Pr.

 

Palavras chave: Montanhismo. Alpinismo. Marcuse. Mecanicismo.

 

Para saber mais:

Leia o ARTIGO:  DESEMPENHO E MONTANHISMO

ou

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* Roberta Nunes em uma conversa além do montanhismo

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Sou montanhista há algum tempo e neste intervalo tive a oportunidade de escalar com grandes montanhistas. Dentre estes, me recordo com muito carinho de uma, que nos deixou ano passado (2006), para uma expedição que vai além dos nossos conhecimentos. A montanhista a que me refiro é Roberta Nunes, a quem eu chamava carinhosamente de Robertinha.

Em 95, quando iniciei a prática da escalada, me recordo que, em uma de minhas primeiras escaladas sem o meu parceiro, pude escalar com a Roberta. Naquela época, ela ainda não era conhecida e como eu, estava no início da sua prática. Pudemos compartilhar da mesma corda e das mesmas “roubadas” no Anhangava. Fizemos algumas vias e fomos para uma que tinha um grau de dificuldade um pouco maior do que aquelas a que estávamos acostumados a fazer na época – a “Sétimo dia”. A vez de guiar era dela. Com toda a sua vontade e disposição, ela se preparou e foi para o tão temido teto. Ao tentar passar do jeito habitual não conseguiu; tentou de outras formas, e nada. Nervosismo instalado, quando ela tentou passar pela aresta, a  aflição e o desespero fizeram com que ela sofresse uma queda. Eu travei. Como havia muita corda, devido ao lance feito por ela, ela bateu o joelho na rocha. Lembro o desespero que passamos. E o único comentário que ela fez foi “esta queda foi muito boa. Você me travou bem. Que esta queda me sirva de lição. Eu estava me achando muito”

Alguns anos se passaram e a Robertinha “deixou de ser a Robertinha” para se transformar em “Roberta Nunes”. Nunca perdeu o carinho pelos amigos e seu jeito permaneceu carismático como no início. Sempre muito querida e quando podia, nos doava algum material que não havia usado em suas escaladas ou nos vendia por um preço de banana. 

No início de 2006, eu estava no final de minha especialização, quando resolvi fazer um trabalho sobre o montanhismo intitulado “PENSANDO A RELAÇÃO HOMEM-NATUREZA A PARTIR DO MONTANHISMO – Um estudo de caso no Morro Anhangava – PR”. Uma das propostas do trabalho era de entrevistar escaladores/montanhistas a fim de entender o que era o montanhismo para eles. Por sugestão do meu co-orientador, Edson Struminski, vulgo Dubois, fui entrevistar a Roberta.

Conversamos durante cerca de uma hora a respeito de vários aspectos do montanhismo. Ela, infelizmente, não teve oportunidade de ver o trabalho pronto.

Eu achava que após a sua morte, esta entrevista nunca sairia dos meus arquivos. Mas, por sugestão do Dubois, resolvi escrever este pequeno artigo pois imaginamos que, com certeza, ela gostaria que todos conhecessem seu olhar sobre as montanhas. 

Lembro como seus olhos azuis brilhavam com as perguntas. Senti que quando a Roberta falava do montanhismo ela não falava de esporte, mas sim de sua vida. Ao questioná-la sobre o que a levou a praticar o montanhismo, ela foi pontual e direta: “em primeiro: a natureza, pois nos sentimos bem estando neste lugar. Em segundo: a busca pelo alto controle, principalmente o controle do medo. Fiquei impressionada Até que ponto podemos controlar o medo com a escalada!”  

Com o passar dos anos nós amamos, aprendemos, sofremos, passamos por inúmeras situações e sentimentos. Estas fases pelas quais passamos, alguns as chamam de tempo, outros as chamam de amadurecimento. Nada desumano e tão pouco vergonhoso – amadurecer.

A Roberta iniciou o montanhismo não pelo esporte, mas para controlar suas fraquezas e seus devaneios. Com o tempo ou o amadurecimento, a montanha surgia para ela como “um grande amor”. Diz ela, (…) não tem como explicar isto. (…) Através da montanha eu fico mais em silêncio, tento rever o que fiz, o que estou fazendo no momento e o que vou fazer (…). No início [a montanha] era para mim um sinônimo de descobrimento e ao mesmo tempo de aventura. De você ultrapassar os limites. (…) depois com o tempo, vi que não é bem esta situação, [hoje] eu acredito mais em estar bem e no auto conhecimento”.

Interessante pararmos para pensar sobre esta mudança de concepção. As montanhas como um caminho para o auto-conhecimento.

Neste sentido, Roberta elogia a postura de pessoas como o Dubois, com quem disse que aprendeu muito : “Hoje o pessoal é mais voltado para a esportiva, para a história do grau da dificuldade e está perdendo a historia [da] vida na montanha, como viver o seu tempo na montanha, ou seja, estar lá, viver lá, dormir, acordar, cozinhar. A escalada esta indo mais para uma historia esportiva [um esporte]. Me considero uma montanhista. O montanhismo não envolve só o esporte, ou seja, a atividade do corpo (…) o montanhismo fala tudo, é uma filosofia de vida, só que ele te mostra uma nova forma de vida, mostra valores em si, valores de vida. A escalada esportiva (…) complementa parte do montanhismo, é o teu movimento nas trilhas, teu treinamento, ou seja, é o esporte em si. [O montanhismo] mostra uma nova forma de ver vários valores da vida, ou seja, ela vai muito mais além”.

Lembro que perguntei porque ela não aproveitava a popularidade dela no meio para mudar o jeito de pensar dos novatos. Rindo, ela comentou:  “Pois é ‘Satão’, até tento, só que quando começo a falar sobre filosofia de montanha, eles falam que eu estou ficando velha”. Senti em sua voz um sentimento de culpa por não conseguir mudar a concepção dos “top teens”.  Mas como ela conseguiria?

Sabemos o quanto a busca pelo desempenho é dominante no meio. Espero que a história da Roberta inspire uma reflexão sobre o sentido transcendente da relação do homem com as montanhas e das possibilidades que elas nos trazem de amadurecimento e auto-conhecimento.

* NOVO SETOR DE ESCALADAS NO ANHANGAVA. UMA DISCUSSÃO SOBRE O FUTURO DO MONTANHISMO NO PARANÁ

Edson Struminski (Du Bois)

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fonte: http://blogdodubois.wordpress.com/2007/07/30/novo-setor-de-escaladas-no-anhangava-uma-discussao-sobre-o-futuro-do-montanhismo-no-parana/

O cume do morro Anhangava, conhecido campo-escola paranaense tinha, até pouco tempo atrás, poucos atrativos para os escaladores, sendo uma área mais freqüentada por visitantes ocasionais do morro, religiosos e acampadores.

Com tudo isto, o cume desta montanha acabou acumulando impactos consideráveis: lixo, vegetação destruída, fogueiras, trilhas em péssimo estado. O cume do morro decididamente era uma área pouco atraente, tanto que apenas dois blocos para escaladas com corda de cima, ofereciam chamarizes para os poucos escaladores que se aventuravam neste ponto da montanha.

Após 1992, montanhistas tornaram-se moradores do Anhangava e a partir de 2002, o Anhangava e toda a serra do qual faz parte acabou virando um parque estadual. Estes fatos somados levaram a um lento processo para recuperar e modificar o uso do lugar. Neste ano de 2007 um dos mutirões do Adote uma Montanha foi feito neste setor da montanha, incluindo o cume, o que permitiu que várias atividades fossem realizadas como limpeza, plantio de árvores, corte de Pinus (espécie arbórea invasora no local) e calçamento de trilhas.

Um pouco antes disto, em 2005/06, tive a satisfação de orientar a monografia de especialização de Hebert Sato (31 anos), um montanhista que desenvolveu uma pesquisa antropológica com a “tribo” de escaladores do Anhangava e que, após isto, se mostrou cada vez mais interessado nas atividades que estavam acontecendo no morro, a ponto de me propor a abertura de um setor para escaladas no cume do Anhangava e, com isto, quem sabe, resgatar esta área para a prática esportiva dentro do espírito do que tinha sido feito em um outro setor chamado Interiores (que havíamos aberto em 2006), ou seja, a abertura de um setor de escaladas com equipamentos fixos de qualidade, mas também com cuidados ambientais que ainda não eram corriqueiros nos setores antigos abertos no Anhangava.

O NOVO SETOR, CUIDADOS AMBIENTAIS

Em abril de 2007 fizemos uma primeira investida no local. Uma trilha a partir de um bloco chamado Raízes foi feita passando pela base do novo setor, na verdade dois blocos separados por uns 50 metros de distância. Da mesma forma como havíamos feito no setor Interiores, esta trilha foi calçada com lajes e blocos de pedra existentes, na maioria no local e também reciclando algum material de uma construção demolida no cume. Árvores de Pinus foram cortadas e seus troncos aproveitados para contenções. Uma imensa quantidade de lixo começou a ser retirada: de escovas de dentes a cobertores, passando por panelas, lanternas, pilhas, garrafas pet, grelhas de churrasco, calçados velhos, plástico, discos de vinil, latas e muito vidro quebrado, inclusive nas paredes, algo suficiente para encher quatro grandes mochilas cargueiras. Também fizemos uma cuidadosa remoção e remanejamento de bromélias que estavam nas linhas de rapel da parede, pois poderiam sofrer com a queda de cordas. Estes cuidados ambientais mínimos, permitirão que o lugar possa ser utilizado permanentemente, com manutenção bem menor do que acontece nos outros setores do Anhangava. 

AS ESCALADAS

A limpeza das bases e a montagem da trilha correu em paralelo com os sempre cansativos trabalhos de chapeleteação da parede, feitos, neste caso, com corda de cima. Participaram nos inícios dos trabalhos Thomás Alexandre Kämpf (26 anos) e Flora Kesselring (20) companheiros do setor Interiores. Outro parceiro da empreita foi Ermínio Gianatti (34), que com seu inesgotável bom humor e disposição contribuiu muito para o avanço dos trabalhos na parede e na trilha. Já Sato, com sua paciência oriental e eu, acabamos realizando o trabalho de formiguinha, persistindo fim-de-semana após fim-de-semana, carregando pedras, furando a rocha para as proteções, limpando o lugar… A Bonier nos cedeu material fixo e a Conquista equipamentos para repor o que gastamos na empreita. Mais do que meros patrocinadores, foram parceiros. Irivan Burda, da Bonier me deu uma série de esclarecimentos a respeito do material que colocamos na parede: resistência, qualidade, durabilidade. Segundo a avaliação dele, o material de inox deverá durar de 3 a 5 vezes mais que os grampos comuns, dependendo do ambiente em que for colocado. Isto pode significar uma vida útil longa, de 30 a 150 anos. Com Edmilson Padilha, da Conquista, que é um importante aberturista de vias da atualidade, compartilhei dúvidas sobre a criação deste novo setor. Ed foi uma das primeiras pessoas que convidamos a escalar no lugar.

O calor de abril induziu a sugestão de nomes que guardam grande atualidade com os acontecimentos atuais: setor Estufa e seus filhotes (vias de escalada), como: Captura de Carbono, Efeito Estufa, via Reciclável, S de Sufoco, etc, vias estas que alcançam graduação variada, de 5o a 7 b ou c. Escaladas de 20 a 25 metros que envolvem principalmente técnicas de regletes misturadas a aderências, comuns no granito do Anhangava. Foram montadas 3 paradas, mas o formato em meia laranja das paredes não permite um rapel livre de atritos. Assim, os escaladores devem estar atentos para o melhor ponto de descida da parede, podendo ser, inclusive, interessante deixar uma parada armada com mosquetões e fitas para evitar o desgaste das cordas. O uso da trilha ainda é o melhor meio de acessar o setor.

Embora 9 vias estejam chapeleteadas, foi possível constatar a possibilidade de variantes, cruzamentos entre as vias e cordas de cima, o que, na prática, amplia consideravelmente o número de escaladas possíveis de serem feitas a partir da estrutura instalada. Certamente o setor representará uma agradável contribuição para a escalada em rocha no Anhangava.

O FUTURO DA ESCALADA NO ANHANGAVA E NO PARANÁ

Da mesma forma como já havia acontecido com o setor Interiores em 2006, a abertura deste novo setor de escaladas no Anhangava gerou vários comentários favoráveis e algumas críticas.

Os comentários favoráveis dizem respeito a quem já teve a oportunidade de lá escalar e, com isto, de desfrutar de momentos agradáveis e do belo visual de cume, em um setor da montanha relativamente isolado do burburinho dos demais setores de escalada do Anhangava e em vias modernas e novas.

Já uma das críticas diz respeito ao fato de que com a abertura deste setor estaríamos desrespeitando uma moratória que a comunidade de escaladores promoveu no lugar para a colocação de proteções fixas e abertura de vias. A moratória aconteceu em 1997, em função da degradação gerada pelo excesso de problemas ambientais causados pelos escaladores, como compactação de bases de vias e platôs, erosão ou deslizamento de trilhas de acesso, ou mesmo pela simples falta de padrões de segurança ou critérios para a colocação das tais proteções fixas. Além disso, havia grande número de vias na época com manutenção precária.

         Eu pessoalmente não entendia a moratória dentro de uma visão conservadora, ou seja como uma justificativa para não se fazer nada e fechar tudo e sim como um estímulo à ação, de modo que estes problemas fossem resolvidos no tempo mais curto possível e, desta forma, fosse atingido novamente um ponto de equilíbrio no uso do local, de forma que pudéssemos novamente usufruir o potencial que o lugar sempre teve, não só como escola de escalada, mas também como irradiador de idéias inovadoras.

          Assim, durante alguns anos, aconteceram atividades intensas no Anhangava. Trilhas foram recuperadas, ou fechadas, bases de vias ou platôs estabilizados, vias clássicas regrampeadas. Criou-se uma cultura de cuidado com o lugar que segue até hoje. Oficialmente o Anhangava participa do Adote uma Montanha. Também os equipamentos de escalada evoluíram e surgiram chapeletas de inox da Bonier, fixadas com parabolts do mesmo material, que garantem mais durabilidade e resistência para as proteções fixas na rocha.

          Com tudo isto, a partir de 2005 novas vias começaram a ser abertas no Anhangava e em 2006 eu próprio participei da abertura de um setor inteiro de escaladas no local, o setor Interiores. Eu entendo que o fim da moratória para novas escaladas no Anhangava é um capítulo passado na vida do lugar, porém, acho que quem tiver argumentos sólidos contra isto deve usar o espaço deste blog para contra argumentar e com isto ampliar a discussão.

          Uma outra crítica diz respeito ao fato de que com a abertura de novos setores não seriam deixadas para as “futuras gerações” mais escaladas novas para abrir no Anhangava. Esta crítica é procedente, pois matematicamente falando, o número de paredes e de vias possíveis de se abrir no lugar é realmente finito, como aliás em qualquer lugar, consequentemente cada via nova aberta hoje reduz o estoque futuro, um dilema, portanto, muito semelhante ao que a humanidade em geral enfrenta em relação ao uso dos recursos naturais do planeta.

          Responder adequadamente a esta crítica, que aliás tem alguns pontos falhos, pode significar para o montanhismo a possibilidade de ajudar a humanidade na resolução dos seus dilemas maiores. Para isto necessitamos fazer algumas considerações: o que significa “futuras gerações” quando nos referimos ao montanhismo? A escalada é um recurso renovável?

As crianças aprendem a subir em coisas praticamente na mesma idade em que conseguem ficar de pé e andar, mas até que possam chegar ao ponto de amadurecimento necessário para abrir novas vias de escalada, com todos os riscos inerentes a isto, passam-se muitos anos. Assim, não é possível colocar uma criança de 10 anos para fazer isto, mas sim um jovem a partir dos 20, a faixa de idade de Tomi e Flora, por exemplo. Pessoas da geração deles estariam, então, amadurecidas o suficiente para abrir vias, estando eventualmente interessados em capturar o que eu tenho de conhecimento e aperfeiçoá-lo para as demais gerações, as que estão com 10 e zero anos, para quem eu (com 44 anos) possivelmente já estarei distante.

A troca de informações entre veteranos e jovens é interessante e pode ser ilustrada por um fato acontecido em uma das vias (Via da Raposa) deste novo setor. Via de regletes e aderência cheia de cristais quebradiços, inicialmente cotei em 7b e uma vez definida a linha de subida, acabei graduando a via em 7a ou menos. Todos os demais escaladores que tentaram a via, mais jovens que eu, graduaram inicialmente em 7c e até mesmo 8a. A que se deve tão disparatada diferença de graduações?

Certamente não a habilidades escaladorísticas, que meus colegas escaladores, mais jovens, tem em maior grau do que eu. Atribuo isto a diferenças culturais, “de gerações”. Na verdade, ao iniciar na escalada, no fim dos anos 70, eu e vários outros escaladores tínhamos como parâmetro de dificuldade máxima o 6o grau, que era feito com o antológico tênis kichute devidamente turbinado com solado de colarinho de pneu de caminhão. Calçado flexível e pouco preciso mas aceitável para escaladas de aderência (onde o bom posicionamento do corpo é mais importante que a força bruta), com o kichute fazíamos o 6o grau “fácil” e o 6o grau “difícil” (tinha ainda o 6o grau “não fiz”). Com o surgimento de calçados adequados, nos anos 80, o “não fiz” foi feito e começou a receber as graduações que estão aí hoje. Fazer aderência se tornou uma coisa “fácil”. Assim, para mim, os graus de dificuldade, para este tipo específico de escalada são bem menores do que para alguém que nunca teve a oportunidade de escalar com um tênis precário como eu. Mas para transmitir esta informação adequadamente e graduar uma via que não “apavore” escaladores iniciantes, ou não seja desacreditada pelos veteranos, é necessário a troca de idéias entre pessoas de várias gerações. Desta forma, acredito que mantenho um conhecimento “útil” para as novas gerações se estiver com eles nas paredes.

Vamos refletir agora sobre o segundo ponto. Teoricamente, se o número de vias é finito em um lugar, a escalada é, então, um recurso não renovável, o que significa que uma vez acabado o estoque de vias para abrir existentes neste lugar o interesse pela escalada deveria decair, correto? Aparentemente não, pois as novas gerações simplesmente estabelecem novas formas de se relacionar com este lugar, independente da existência de novas vias para se abrir, como nós próprios fizemos há 20 anos atrás com boulders e artificiais em livre. É por isto que a escalada mantém seu interesse passados tantos anos e em tantos lugares.

Assim, considero que não devemos subestimar a capacidade das novas gerações de reinventarem a escalada e, assim, manter vivo o esporte. Considero preferível ter esta posição otimista do que ter uma excessivamente conservadora e com isto congelar as possibilidade de avanço do esporte e de aperfeiçoamentos em tratos ambientais.

Este congelamento, aliás, é a principal consequência de uma falha no raciocínio “a abertura deste setor não deixará para as futuras gerações mais escaladas novas para abrir no Anhangava”. Pois apenas estaríamos transferindo este dilema para o futuro, para as tais futuras gerações que seriam, de novo, confrontadas com o mesmo raciocínio e com as mesmas restrições, sem contar, porém, com as experiências das gerações anteriores.

* Desempenho e Montanhismo

Por Hebert Hiroshi Sato“Os dias que estes homens passam nas montanhas são os dias em que realmente vivem. Quando as cabeças se limpam de teias de aranha e o sangue corre com força pelas veias. Quando os cinco sentidos cobram vitalidade e o homem completo se torna mais sensível e então já pode ouvir as vozes da natureza e ver as belezas que só estavam ao alcance dos mais ousados”.
Messner

Por experiência própria e por uma observação ao longo dos anos, pude perceber o quanto a relação com as montanhas muda a perspectiva do ser humano com o seu mundo. O esforço físico e mental que a ascensão requer, valoriza a pessoa. De outro lado, a mudança de escala mostra um mundo maior e acima do ser humano.
Pode-se assim dizer que, a ascensão às montanhas tem um impacto forte na consolidação e na aquisição de valores. Tais valores, permeados por sentimentos, vão desde o temor, religiosidade, uso, proteção, possibilidade de “conquista” até uma necessidade de reaproximação com uma natureza sempre vivida como distante.
Para perceber tais questões, escolhi um local específico, o Morro Anhangava, localizado na Serra da Baitaca. Em pesquisa realizada entre os meses de julho a dezembro de 2005, levantei algumas daquelas formas de relação do homem com a natureza através de entrevistas, enfatizando, como decorrência da observação, os elementos de controle e domínio presente na prática de alguns montanhistas.
Percebi que muitos montanhistas/escaladores iniciaram a sua aproximação com a montanha como um caminho para o controle/conquista do medo, sendo ainda seu discurso permeado pela idéia da “sensação de aventura”. Como sabemos, no montanhismo o risco é inerente à prática, desta forma, viver este risco, dominá-lo e ultrapassá-lo é um grande desafio. Neste sentido ainda, o risco tem que estar a altura de quem o desafia, para poder ser uma conquista significativa – uma grande aventura.
Até mesmo a idéia de que a montanha proporciona uma “fuga da realidade”, surgida no discurso de alguns montanhistas/escaladores, traz em si o conceito de escapar de alguém ou de alguma coisa que o domina. A sociedade exerce este papel de dominador; então, é necessário fugir, nem que por um breve momento, para suportar a dominação exercida por esta sociedade limitante. Pode-se dizer que esta dominação faz com que o homem se remeta à ou se re-aproxime da natureza, mantida afastada pelo histórico ocidental de conquista e separação.
As diferentes motivações que levam estes e outros indivíduos às montanhas são o fundamento para as diversas ramificações, divisões ou “especializações” que acabam mediando e dando forma às relações com a natureza. Tais divisões acabaram por dividir o montanhismo em categorias ou sub-grupos. É neste sentido que vemos a existência de, além do montanhismo propriamente dito, de atividades como paraglider, snowboard, mountain bike, treeking, boulder, escalada esportiva, escalada em rocha, escalada em solo, vôo livre, dentre outras. Ousamos afirmar que tal especialização está ligada a uma forma de pensar “cartesiana”, que divide o universo em fragmentos e perde a percepção do todo. Além disso, ela, é regida por uma ditadura numérica: a graduação – utilizada como forma de medir um desempenho.
Esta “ditadura” começou a tomar um grande impulso no morro Anhangava por volta de 1985, quando foram conquistadas inúmeras vias com graduações acima do 7º grau. Isso, de certa forma, é uma preocupação expressada na fala de alguns montanhistas escaladores: “(…) quando eu falo com os mais novos sobre a “filosofia” do montanhismo, a história, eles falam que eu estou ficando velha”.
Interpretamos que a preocupação com o desempenho surge como decorrência de um impulso que não pode ser satisfeito – uma carência. Para satisfazer esta carência, é necessário muito trabalho que, por sua vez, não é imediatamente gratificante. Isso porque, subir ou escalar uma montanha traz em si fatores de “sacrifício”: os equipamentos apresentam, apesar de todo o avanço, um desconforto na utilização; os sapatos utilizados para prática são desconfortáveis, já que são, ou pesados ou de números menores (para melhor firmeza); os equipamentos mesmo sendo de alumínio por sua grande quantidade são pesados e de difícil transporte, os locais são longínquos necessitando de horas de caminhada para chegar aos locais e muitas vezes estas caminhadas acontecem sob um sol escaldante.
Como podemos ver, não há conforto em tal prática, entretanto, a busca pelo desempenho continua de modo incessante, exigida por uma sociedade que somente valoriza o “alto desempenho” e os atos “heróicos”.
Mas, partindo desta minha pesquisa, percebi que o desempenho escraviza, aliena o montanhista (esportista) e impõe determinações na sua conduta. Porém, considerando-se que, para que esta busca incessante não ameace ninguém, torna-se necessário controlar os fantasmas do desempenho. Em outras palavras, o homem só poderá alcançar a felicidade se transcender esta busca incessante e alienadora pelo desempenho.

Como vimos, a busca pela conquista, pelo domínio ou pela fuga, esteve presente na fala dos entrevistados, principalmente quando estes se referiam ao início de sua história de relação com a montanha. Entretanto, complementar a este tipo de discurso, veio à tona a visão de que a relação com a montanha hoje “é algo mais”. Para vários deles, as montanhas mostram uma nova forma de ver vários valores da vida, indo muito além da busca pela maior graduação ou da superação de montanhas cada vez mais “difíceis”.
Para eles, a montanha passa a ser um santuário. Não um santuário como sinônimo de ambiente rico em fauna e flora, mas, no sentido religioso do termo – um caminho. A partir deste momento, o montanhismo vem carregado de outras características, diferentes daquelas dadas por uma definição, digamos, mais “oficial” ou presente nos manuais de escalada. O escalador, antes apenas “esportista”, passa a se ver mais como um “montanhista” – não mais como alguém que desafia e conquista a montanha mas como alguém que se torna “parte” dela.

Com isto, é possível ver assim, o quanto o discurso dos entrevistados sofreu e ainda sofre mudanças. De uma relação de simples conquista e dominação, passam a analisar sua relação com a montanha como uma busca por “ascensão espiritual” acima de tudo. A montanha é hoje uma “arte de sua vida”, extremamente importante, a ponto de não poderem viver sem ela e um local onde podem alcançar a felicidade tão almejada, depois de muito “sofrer”.

Os entrevistados para a pesquisa foram: Roberta Nunes (in memorian), Diego, Edson (Du Bois), Ceusnei, Tiago (Camuza), Cláudio Newton, Guilherme (Manguabinha) e César Lineu.

* 1o de maio – Missa no Anhangava (ponto de vista)

Em meu ponto de vista, todos tem direito à montanha. Os ambientes de montanha foram e são patrimônios da humanidade e isto deve consistir em uma preocupação por parte de todos.
Mas o que fazer em um primeiro de maio no qual a ação de impacto sobre o ambiente é por vezes muito maior em relação àquela que ocorre em praticamente todo ano? A esta pergunta posso apenas responder: NECESSITAMOS TER CONSCIÊNCIA.
Proibir é uma ação arbitrária e também demagógica. Pois, se esta for a solução, não deverá mais existir nem mesmo montanhismo, ambientalismo, ou quaisquer outros “ISMOS” (como já mencionado). Ou vocês acham que o montanhismo é a solução para a preservação das montanhas?
Perdoem-me colegas e companheiros de paixão (montanhismo e escalada), mas nós impactamos, e muito, a montanha. Como exemplo de tal condição cito o Everest. Há uma grande quantidade de entulho em seu cume e quem vocês acham que “sujou”? Com certeza não foi nenhuma missa. Quem sujou foram montanhistas, como nós.
Claro que há pessoas conscientes que iniciaram mutirões de limpeza, mas ainda há muita coisa lá em cima. Muitos podem pensar que os problemas das montanhas do Nepal não são de nossa responsabilidade e devemos nos preocupar com as montanhas daqui, com o ANHANGAVA!.
Se é apenas esta a preocupação, observem então a destruição que nós escaladores fazemos por aqui: já temos grampos em cerca de 130 vias – já fizeram o cálculo do número de grampos espalhados nas paredes do Anhangava? Temos agarras mais claras devido a ação do carbonato de magnésio, tal como na via branco no preto, por exemplo; agarras quebradas, como na via ‘meia lua’ ou até mesmo criadas (!) como o mono dedo na via ‘10o sinfonia’, fruto de uma retirada de grampo. Isso sem mencionar as bases das vias e até mesmo as trilhas, (semi) destruídas devido ao trânsito dos montanhistas e escaladores que pouco auxiliam na manutenção de suas bases.
E mesmo assim afirmam que somente os montanhistas e escaladores podem subir?
Me digam senhores montanhistas, o que seria do Anhangava sem o Dubois ou alguns poucos preocupados em preservá-lo?
É necessário ter consciência. Não vejo mal em a missa ocorrer, desde que esta traga benefícios ao ambiente. Se todo peregrino levasse uma pedra (quer penitencia maior?), poderia ser feita a manutenção da trilha ou então, em vez de carregar pedras, poderia realizar o replantio de mudas nativas ou coletar toda a sujeira, dentre tantas outras atividades possíveis de manutenção do ecossistema.
Acho que, ao invés de proibirmos a ação dos religiosos, devemos trabalhar para conscientizá-los. Através da educação e da conscientização alcançaremos um mundo melhor e mais sadio.
Um abraço hhs

Este texto, veio em resposta ao ‘debate sobre a proibição da missa no cume do Anhangava’.